Como todas as terças-feiras, por volta das 21h estava eu a sair do metro do Terreiro do Paço para mais umas horas com os sem-abrigo no Campo das Cebolas. Em conjunto com os meus colegas de equipa, distribui as refeições pelos sem-abrigo, que se colocavam em fila indiana junto ao carro do Paulo Ferroni, um terapeuta que desempenha o papel de “coordenador” com os restantes voluntários da instituição CASA – Centro de Apoio ao Sem-Abrigo. Mas como a nossa função é muito mais do que dar comida, começámos a conversar com eles, como de costume. A nossa presença ali já é aceite e somos completamente bem recebidos. Assim, foi muito mais fácil conseguir encontrar, não só uma história forte (pois todas elas o são), mas a história.
A cada dia que passava sentia-se mais sozinho: para os pais era simplesmente objecto de descarga das suas frustrações; em relação aos irmãos sempre se sentiu inferior; e nem sequer teve a possibilidade de criar laços fortes com os colegas da escola, uma vez que só pôde estudar até à 4ª classe. Com 13 anos foi trabalhar para que o pai tivesse mais dinheiro para os vícios. Do seu ordenado iam-lhe parar às mãos apenas 500 escudos, que tinham de dar para toda a semana. Com 14 anos voltou a tentar suicidar-se: bebeu gasolina.
“Levei pancada durante 18 anos”, afirma cheio de raiva e tristeza na voz. Quando atingiu a maioridade esta fase da sua vida terminou, mas iniciou-se outra que para ele, apesar de tudo, lhe pareceu melhor. Deixou de ser dependente dos pais e deixou para trás tudo o que isso acarretava para conhecer outra forma de solidão: a vida na rua. Viver na rua “é muito complicado de explicar”. “É chuva, é frio, é discriminação, é humilhação”, descreve.
Desde que saiu de casa nunca mais quis saber dos pais. Eles procuraram-no mas, apesar de já ter dormido bem perto da casa deles, durante muito tempo não o encontraram. Seguiu o seu caminho sozinho e teve de sobreviver pelos seus próprios meios. Arrumou carros, trabalhou na construção civil e até vendeu em feiras, mas o dinheiro que conseguia ao final do mês não dava sequer para arranjar um tecto onde dormir. Não tinha forma de sair da rua e começou a sentir um vazio. Quando lhe perguntei o que fazia na rua a sua resposta foi rápida e sucinta: “passeava”. O que mais lhe custava era ouvir os comentários daqueles que passavam por ele e que não compreendiam o que era a sua vida e o que o tornou num sem-abrigo. «Tu vives na rua e dizem-te “parecem cães a dormir na rua” e cospem-te em cima», relembra com mágoa.
O Paulo Ferroni, terapeuta, tem uma grande afeição por estas pessoas, nomeadamente pelo Sérgio, e é por isso que sente tanta satisfação ao fazer o que faz. Fá-lo por saber que estas pessoas “perderam aquilo que tinham, descarrilaram”. Ao oferecer-lhes refeições está sobretudo a conquistar a confiança deles para mais tarde lhes fazer terapia, tentar arranjar-lhes um emprego para que orientem a sua vida. “Oferecer comida é um meio, nunca um fim em si”, complementa.
Já o Sérgio conseguiu nunca descarrilar completamente, sem a ajuda de ninguém, a nível psicológico. Mas precisava de ajuda para conseguir alimentar-se. Diz nunca ter pedido na rua, apenas ia ao refeitório da Santa Casa, nos Anjos, pedir comida. Perguntei-lhe se alguma vez tinha roubado ao que respondeu prontamente “não, nunca roubei”. Porém, repensou: “Quer dizer…”. Afinal tinha acontecido alguma coisa. Contou que uma vez um amigo lhe pediu para ir com ele arranjar a fechadura da porta de uma senhora idosa. No final deu-lhe uma parte do dinheiro. Só mais tarde o Sérgio descobriu que o plano era outro: assaltar a casa da senhora, que estava num lar. “Influenciei-me pela pessoa errada”, justifica, e agora “estou em pena suspensa, durante dois anos”. Tem noção de que o tribunal tomou a decisão acertada pois, perante a lei, “tão ladrão é o que rouba como o que fica à porta”.
A droga e o álcool são comuns entre os grupos de sem-abrigo. Muitos deles estão ali porque perderam tudo o que tinham e sentem necessidade de se refugiar em alguma coisa, para esquecer a vida. Mas o Sérgio nunca se deixou ir por esses caminhos. “Nunca bebi e não sei o que são drogas”, garante. Quando vivia na rua via frequentemente os seus companheiros drogarem-se e, apesar de ter vivido com eles, diz nunca ter sentido nada. Sabe bem qual é o cheiro, mas não o sabor.
O Sérgio tenta dar esperança a todos os que estão na situação em que também ele já esteve. “Se eu consegui, eles também conseguem”, afirma com esperança. Mas no fundo sabe que é bastante difícil pois nem todos tiveram ou irão ter uma oportunidade como a que se cruzou na sua vida. Outros, mesmo que os tentem ajudar, preferem ficar ali, porque para algumas pessoas “a rua é um vício”. “Dão-lhes roupa e comida. Para que querem uma casa? Para que é que vão trabalhar?”, revela Sérgio, que esteve no mesmo barco que eles durante anos. O que lhes ocupa a alma é apenas um enorme vazio e por isso “não querem uma palavra amiga, não querem ouvir ninguém”.
Como disse o Paulo, estas pessoas “acham que tudo o que lhes acontece de bom ou de mau depende da sorte” e é por isso que sentem que já não vale a pena fazerem nada. “Já não acreditam em si e deixaram de ter esperança em que a sua vida tome outro rumo”. Muitos deles acham que “a sociedade tem de lhes dar tudo”. Porém o Sérgio nunca pensou desta forma. Apesar da revolta que sentia sabia que tinha de lutar por si, pois mais ninguém o iria fazer.
Durante todos aqueles anos o que mais queria era sair da rua, não só porque queria descobrir o prazer de ter a sua própria casa mas também para mostrar às pessoas que o olhavam de lado na rua e que tratam os sem-abrigo “como porcos” que podia vencer e que são seres humanos. E conseguiu mudar de vida. Em Fevereiro do ano passado, uma instituição arranjou uma casa para ele viver, pela qual paga 56 euros mensais. Consegue ter uma vida de certa forma estável por receber o rendimento mínimo. Agora só vai pedir comida às carrinhas das instituições de solidariedade quando precisa mesmo. Hoje tem a sua casa e dinheiro que quase chega para o básico.
Na verdade o Sérgio é um vencedor. Viu Lisboa durante 20 longos anos, conhece a cidade quase como a palma da sua mão. Percorreu-a “mais de mil vezes” com a esperança de encontrar um emprego. Já foi a Espanha procurar trabalho, mas tem a certeza de que não quer ir para outro país e as suas palavras revelam ainda alguma fé em Portugal: “o meu país é este”. Mas apesar disso não consegue deixar de se sentir revoltado com o país que o viu nascer e que não lhe oferece mais oportunidades de uma vida melhor. Sente também rebelião pela forma como os outros olharam para ele, porque no fundo somos todos iguais e qualquer um pode cair neste mundo. Quando lhe perguntei o que é, para si, mais bonito em Lisboa respondeu: “As mulheres, porque de resto… há muita discriminação”. Mas não deixa de recordar os seus passeios pelas noites de Lisboa e “a calma e a harmonia” que se sente nas ruas.
Todas as terças-feiras quando chego ao Campo das Cebolas lá está o Sérgio, para nos fazer companhia e para passar algum tempo com aqueles que considera como seus amigos. “São vocês. A minha família está na rua. São meus irmãos. Gosto de vocês”, diz enquanto olha à volta e aponta para os voluntários que entregam comida, roupa, palavras e sorrisos. Durante os anos em que esteve na rua conheceu muitas pessoas, mas nunca se envolveu demasiado. É em nós que encontra a palavra amiga que lhe faltou durante quase quarenta anos. E foi disso que sentiu tanta falta. Se tivesse de escolher uma palavra para dizer aquilo que lhe fez mais falta, comida ou amor, sabia expeditamente o que responder: “das duas, da mesma forma”.
O Paulo também acredita que é importante conversarmos com eles, e não limitarmo-nos a dar-lhes refeições. Desta forma consegue obter mais facilmente a confiança deles. Mas nunca se entrega demasiado. “Evito estabelecer ligações fortes, para me defender”, conclui.
A vida do Sérgio melhorou bastante desde que arranjou uma casa onde dormir, onde passar o seu tempo e onde fazer as suas coisas. Porém, esta não se tornou num paraíso. Continua a ter obstáculos para enfrentar, como teve sempre. Ter uma casa não é tudo. Tem amigos com quem pode contar quando tem fome ou quando precisa de conversar ou de ouvir apenas uma simples palavra. Mas nem tudo se resolve assim, e o maior obstáculo que sentiu durante toda a vida persiste: a solidão. Até aos 18 anos viveu com os pais que o maltratavam física e psicologicamente – estava, portanto, sozinho. Tinha de trabalhar para viver e quando chegava a casa não tinha ninguém que o abraçasse e que lhe fizesse sentir que tudo valia a pena. Aos 18 anos, quando saiu de casa e se tornou num sem-abrigo, não conseguiu criar grandes amizades. Foram 20 anos sozinho, a vaguear pelas ruas de Lisboa. Haverá, certamente, poucas formas de solidão tão cruéis como esta. Agora tem uma casa, desde há pouco mais de um ano. Tem-nos a nós, com quem passa algumas das suas noites. Mas “toda a gente tem um sonho”.
Apesar de já ter passado muito na vida, de já ter visto e vivido coisas que a maior parte das pessoas só consegue imaginar, de já ter tido sensações para lá do que é aceitável e de já ter fruído de demasiados sentimentos ao extremo, há muitas coisas que ainda não descobriu. Não sabe o que é sentir amor nem o que é ter alguém que se preocupa realmente consigo. Uma pessoa da qual uma parte da vida existe para ele. Não sabe o que é chegar a casa e ter alguém à sua espera, que lhe pergunte como lhe correu o dia, depois de lhe dar um beijo ou um abraço.
Ao arranjar um emprego conseguia alcançar os seus dois outros sonhos: “ter a minha própria casa e ter uma família”. De facto, ao conseguir a sua autonomia, ter um trabalho onde arrecadasse dinheiro para que todos os meses pudesse dar àqueles que iria certamente amar uma vida como a que ele nunca teve, seria bem mais fácil chegar onde ainda não conseguiu chegar. “Se um dia tiver filhos vão ser tratados como eu nunca fui”, garante com determinação na voz.
Com um percurso de vida marcado pela solidão só lhe resta olhar em frente. Com os seus olhos castanhos a apontar na direcção dos meus, diz-me que “O futuro é daqui para a frente, já com um sorriso nos lábios”.
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