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segunda-feira, 20 de junho de 2011

O Sangue na Arena

“São proibidas todas as violências injustificadas contra animais, considerando-se como tais os actos consistente, sem necessidade, se infligir a morte, o sofrimento cruel e prolongado ou graves lesões a um animal” (ponto 1 do artigo 1.º da Lei n.º 92/95 de 12 de Setembro, da “Liga Portuguesa dos Direitos do Animal”).
Isto poderia ser suficiente para considerar completamente ilegal, imoral e vergonhoso o facto de, em Portugal, ainda se praticar este acto atroz, por outros considerado tradição, uma vez que a prática da tourada:
- é um acto injustificado e desnecessário; pois serve apenas os interesses e prazeres humanos, contra os interesses dos animais;
- inflige a morte; tendo em conta que são autorizados os espectáculos com touros de morte, embora excepcionalmente, em localidades em que esta prática é considerada tradição há pelo menos 50 anos desde a entrada em vigor desta lei, nos dias em que se realiza esse evento;
- inflige o sofrimento cruel e prolongado; tanto pelas práticas que vemos dentro da arena como por todas as crueldades que se passam atrás dos nossos olhos, e que serão mencionadas mais à frente.
- inflige graves lesões aos animais; se considerarmos o facto de as bandarilhas terem entre 8 e 30 cm em metal grosso, com arpões na ponta, para que rasguem os músculos e os ligamentos do touro. A isto juntam-se as lesões físicas e psicológicas de que ninguém fala.
Posto isto, como é possível que, no mesmo diploma, a “Liga Portuguesa dos Direitos do Animal”, exista outro ponto, completamente contraditório, que afirma que “É lícita a realização de touradas, sem prejuízo da indispensabilidade de prévia autorização do espectáculo nos termos gerais e nos estabelecidos nos regulamentos próprios”?
Vivemos numa sociedade livre, em que cada um pode praticar as actividades que pretender, que lhe dêem prazer e que sirvam os seus interesses – mas a nossa liberdade não se pode sobrepor às vontades dos outros e não pode, muito menos, fazê-los sofrer. Há quem diga que o touro não sente sofrimento durante a tourada e que os golpes que os ferros causam no seu corpo lhe provocam apenas adrenalina. Mas o touro é um animal como qualquer outro e por isso sente dor e medo também como qualquer outro. Espetar uma bandarilha do tamanho das que se usam, geralmente, nestas torturas, que rasgam os ligamentos do touro, para além dos cortes que o animal sofre no final da tourada para se retirar os ferros, não é em parte nenhuma um acto leve e pacífico.
Contudo, segundo os toureiros existe um grande amor pelo touro, um amor que as pessoas que não vivem as festas de touros não conseguem imaginar. Eu concordo. Existe amor pelo dinheiro que cada festa permite aos toureiros arrecadar e existe amor pelo sentimento de heroicidade que estas lhes permitem sentir. Mas há que esclarecer que uma pessoa que se diverte e emociona com o sofrimento de outros, sejam animais racionais ou não, nunca poderá vir a ser considerada um herói. Talvez um covarde, que se sente superior ao atacar os que não têm como se defender.
Porém, avaliando a questão por outro lado, podemos até considerar que existe amor para com este animal. É também por isso que escolheram esta ocupação e não outra qualquer. Mas se formos ao dicionário os sinónimos que encontramos para a palavra “gostar” são: achar bom gosto a; ter prazer em ver ou em sentir; ter afeição. E podíamos continuar a citar a lista que não encontraríamos as palavras: “respeitar” e “cuidar”. Os toureiros e mesmo as pessoas que assistem a estes espectáculos e que são a favor deles gostam do touro, visto que é ele que lhes dá trabalho, dinheiro, visibilidade, sentimentos de grandeza. É com eles que passam uma grande parte do seu tempo. Mas, em altura nenhuma, os respeitam ou cuidam deles. Os touros são apenas um instrumento, um meio para atingir diversos fins. E não é muito difícil perceber isto: um pedófilo é uma pessoa que gosta (e apenas gosta) de crianças. Mas de forma alguma as respeita quando abusa delas sexualmente, lhes tira a inocência. E a violência é a mesma. Qual é a diferença entre a crueldade de um pedófilo ou de um toureiro? Ambos fazem mal àqueles de quem gostam.  
Se mesmo assim se continuar a pensar que os processos pelos quais estes animais passam não são suficientes para acabar com algo que existe há milhares de anos, eu tenho todo o gosto em continuar. Os touros vivem durante quatro anos em liberdade a alimentar-se de pastagens naturais. Esta frase corresponde a duas coisas: uma ilusão e um problema que ultrapassa a tauromaquia.
Uma ilusão porque todos os animais merecem respeito durante toda a vida e, ainda mais do que isso, todos os animais têm direito à vida. E isto não é o que acontece com os touros. Podem até viver em liberdade, mas depois da tortura a que são submetidos são automaticamente enviados para os curros onde ficam em condições vergonhosas. Alguns deles, em algumas zonas, são mandados para os matadouros. Onde está o respeito? Os animais vivem porque nasceram segundo a ordem natural da vida. Há pessoas que dizem que os touros nasceram somente para ser toureados. Nenhum animal nasce (ou devia nascer) com outro propósito que não seja viver. Mas então onde está o direito à vida?
Mas não tem importância, porque vivem anos a passear em liberdade.
E um problema visto que esses hectares ocupados não só para alimentar e passear os touros mas também para os treinar e preparar para a vida lúgubre que terão mais tarde poderiam ser ocupados em plantação, fazendo de Portugal um país mais desenvolvido em termos agrícolas.
O acto de tourear é ainda defendido por vários argumentos que até podiam ser válidos, se não fosse esta uma actividade tão violenta e cruel. Diz-se que as touradas estão rodeadas de uma grande arte e que despertam uma grande emoção em quem as vive. Parece-me que maltratar animais não tem nada que ver com arte. Arte é algo que nos transparece sentimentos bons, nunca uma coisa que nos choca pela sua tamanha barbaridade. Arte é algo que fazemos por gosto, que nos dá prazer, mas que não perturba ou fere os outros. Arte é algo que cada um faz à sua maneira, sempre de forma diferente – mas onde está a diferença entre a forma de A espetar uma bandarilha nas costas do animal que, enervado, pactua com aquele jogo, e a forma como B atira o ferro, que irá cair um pouco mais abaixo ou um pouco mais acima, mas sempre nas costelas já magoadas do touro? A beleza, apesar de ser subjectiva, é uma sensação boa. Uma pessoa com o mínimo de valores morais não considera a dor uma sensação boa. Logo, como é que o mesmo acto pode ser doloroso e belo?   
As touradas são más, causam dor, sofrimento, contam com uma tamanha violência e tudo isso. Já sabemos. Mas não devem ser proibidas porque as pessoas também matam animais para comer, mantendo-os em situações selvagens. Estes animais nascem com o único propósito de nos alimentar a nós, humanos, e são criados o mais rapidamente possível, com alimentos que os engordem o mais possível. Então, se fazemos isto aos animais, não há nenhuma razão para não os violentarmos nas arenas. Então porque é que os restantes maus-tratos a animais são proibidos? Se podemos fazer todas estas atrocidades, legalmente, então devíamos todos poder pontapear os cães que encontramos nas ruas ou agarrar em pressões de ar e matar, da forma mais violenta possível, todos os animais do mundo. Mas não o fazemos porque um mal nunca pode justificar outro. As touradas existem. Podemos tornar os maus-tratos generalizados ou podemos tentar acabar com eles definitivamente, a todos os níveis.
Quando falamos em touradas lembramo-nos geralmente do espectáculo que se faz à volta do touro. Contudo estes não são os únicos a sofrer com esta desumanidade. Em Portugal, e não só, ainda se faz o toureio a cavalo: os cavalos têm de enfrentar, certamente em pânico, os ataques do touro, enquanto o cavaleiro, o único que tem responsabilidade na maldade pela qual o touro passa, assiste em cima do cavalo. Este animal enfrenta assim o touro, que lhe vai tentando cravar os seus chifres, pois ao ser atacado vê o homem e o cavalo como um só, querendo apenas defender-se do mal que lhes estão (está, o cavaleiro) a fazer. 
Ao acabarmos com as festas de touros estaríamos a acabar também com uma espécie: o touro bravo. Tendo em conta as batalhas que o Homem tem feito para que espécies como o morcego ou o lince ibérico não desapareçam do planeta, pode não fazer muito sentido estarmos a acabar com mais uma. Mas como já foi dito antes nenhum animal deve existir com outro objectivo que não seja viver – não deve existir apenas para servir e divertir os outros. É preferível que um animal não exista se a sua simples existência lhe provoca sofrimento. Quando tentamos prolongar a continuidade de uma espécie fazemo-lo porque acreditamos que essa espécie tem direito a viver, não porque cremos em que nos venha a ser útil.
Todos estes argumentos para alguns não passam de uma ventania que lhes passa a 200km/h pelos ouvidos, porque tudo o que aqui foi argumentado, para essas pessoas, pode ser rápida e facilmente refutado, com um argumento que tantas vezes usam para se sentirem melhor e conseguirem dormir à noite: as touradas são uma tradição, fazem parte da cultura dos países que a praticam. Dizem que as pessoas defendem as tradições e que agora querem acabar com mais uma. Contudo, uma tradição é algo que enaltece um país, dignifica um povo. Não pode ser algo que só contribui para envergonhar ainda mais o ser humano, que já tem tanto com que se envergonhar. Os bailes das aldeias, o rancho folclórico, o fado, o São. Martinho – são tradições. São celebrações em que as pessoas que gostam devem participar, porque são momentos em que as pessoas se divertem, riem, aplaudem, sem magoar os outros e onde os interesses de uns não se concretizam espezinhando outros. Se virmos as coisas por esse prisma, podemos então considerar o acto de cortar as mãos a quem rouba, que se pratica, ainda hoje, em alguns países, como uma tradição. Para as pessoas que o praticam, também faz todo o sentido, visto que faz parte da sua cultura. Porém, não creio que faça sentido continuar com esta prática.
Por isso, as touradas não são uma tradição, são festas que têm de acabar o mais rapidamente possível, porque não podemos continuar a pactuar com a violência e muito menos a aplaudi-la. 

quinta-feira, 16 de junho de 2011

“Toda a gente tem um sonho”

Como todas as terças-feiras, por volta das 21h estava eu a sair do metro do Terreiro do Paço para mais umas horas com os sem-abrigo no Campo das Cebolas. Em conjunto com os meus colegas de equipa, distribui as refeições pelos sem-abrigo, que se colocavam em fila indiana junto ao carro do Paulo Ferroni, um terapeuta que desempenha o papel de “coordenador” com os restantes voluntários da instituição CASA – Centro de Apoio ao Sem-Abrigo. Mas como a nossa função é muito mais do que dar comida, começámos a conversar com eles, como de costume. A nossa presença ali já é aceite e somos completamente bem recebidos. Assim, foi muito mais fácil conseguir encontrar, não só uma história forte (pois todas elas o são), mas a história.
O Sérgio Malveiro tem 40 anos, 20 dos quais a viver na rua. Quando era criança vivia com os pais e com os quatro irmãos. Não teve uma infância como a da maioria das crianças. O seu pai era alcoólico e era neste vício, assim como em máquinas de jogos, que gastava muito dinheiro. Já a mãe, para além da profissão de contínua numa escola, prostituía-se para ter dinheiro para esbanjar em poucos dias. Ambos sempre foram violentos para com o Sérgio, que sofreu por parte deles “maus-tratos, abandono e discriminação” em relação aos irmãos, que sempre foram tratados, realmente, como filhos. O desespero que sentia foi enchendo como um balão, e este rebentou bastante cedo. Quando tinha apenas 6 anos e devia ser uma criança cheia de alegria e inocência, já via o lado negro da vida, já sentia que não queria viver: tentou o suicídio, engolindo um frasco de comprimidos para dormir. Sobreviveu, mas a angústia persistiu.
A cada dia que passava sentia-se mais sozinho: para os pais era simplesmente objecto de descarga das suas frustrações; em relação aos irmãos sempre se sentiu inferior; e nem sequer teve a possibilidade de criar laços fortes com os colegas da escola, uma vez que só pôde estudar até à 4ª classe. Com 13 anos foi trabalhar para que o pai tivesse mais dinheiro para os vícios. Do seu ordenado iam-lhe parar às mãos apenas 500 escudos, que tinham de dar para toda a semana. Com 14 anos voltou a tentar suicidar-se: bebeu gasolina.  
“Levei pancada durante 18 anos”, afirma cheio de raiva e tristeza na voz. Quando atingiu a maioridade esta fase da sua vida terminou, mas iniciou-se outra que para ele, apesar de tudo, lhe pareceu melhor. Deixou de ser dependente dos pais e deixou para trás tudo o que isso acarretava para conhecer outra forma de solidão: a vida na rua. Viver na rua “é muito complicado de explicar”. “É chuva, é frio, é discriminação, é humilhação”, descreve.
Desde que saiu de casa nunca mais quis saber dos pais. Eles procuraram-no mas, apesar de já ter dormido bem perto da casa deles, durante muito tempo não o encontraram. Seguiu o seu caminho sozinho e teve de sobreviver pelos seus próprios meios. Arrumou carros, trabalhou na construção civil e até vendeu em feiras, mas o dinheiro que conseguia ao final do mês não dava sequer para arranjar um tecto onde dormir. Não tinha forma de sair da rua e começou a sentir um vazio. Quando lhe perguntei o que fazia na rua a sua resposta foi rápida e sucinta: “passeava”. O que mais lhe custava era ouvir os comentários daqueles que passavam por ele e que não compreendiam o que era a sua vida e o que o tornou num sem-abrigo. «Tu vives na rua e dizem-te “parecem cães a dormir na rua” e cospem-te em cima», relembra com mágoa.
O Paulo Ferroni, terapeuta, tem uma grande afeição por estas pessoas, nomeadamente pelo Sérgio, e é por isso que sente tanta satisfação ao fazer o que faz. Fá-lo por saber que estas pessoas “perderam aquilo que tinham, descarrilaram”. Ao oferecer-lhes refeições está sobretudo a conquistar a confiança deles para mais tarde lhes fazer terapia, tentar arranjar-lhes um emprego para que orientem a sua vida. “Oferecer comida é um meio, nunca um fim em si”, complementa.
Já o Sérgio conseguiu nunca descarrilar completamente, sem a ajuda de ninguém, a nível psicológico. Mas precisava de ajuda para conseguir alimentar-se. Diz nunca ter pedido na rua, apenas ia ao refeitório da Santa Casa, nos Anjos, pedir comida. Perguntei-lhe se alguma vez tinha roubado ao que respondeu prontamente “não, nunca roubei”. Porém, repensou: “Quer dizer…”. Afinal tinha acontecido alguma coisa. Contou que uma vez um amigo lhe pediu para ir com ele arranjar a fechadura da porta de uma senhora idosa. No final deu-lhe uma parte do dinheiro. Só mais tarde o Sérgio descobriu que o plano era outro: assaltar a casa da senhora, que estava num lar. “Influenciei-me pela pessoa errada”, justifica, e agora “estou em pena suspensa, durante dois anos”. Tem noção de que o tribunal tomou a decisão acertada pois, perante a lei, “tão ladrão é o que rouba como o que fica à porta”.
A droga e o álcool são comuns entre os grupos de sem-abrigo. Muitos deles estão ali porque perderam tudo o que tinham e sentem necessidade de se refugiar em alguma coisa, para esquecer a vida. Mas o Sérgio nunca se deixou ir por esses caminhos. “Nunca bebi e não sei o que são drogas”, garante. Quando vivia na rua via frequentemente os seus companheiros drogarem-se e, apesar de ter vivido com eles, diz nunca ter sentido nada. Sabe bem qual é o cheiro, mas não o sabor.
O Sérgio tenta dar esperança a todos os que estão na situação em que também ele já esteve. “Se eu consegui, eles também conseguem”, afirma com esperança. Mas no fundo sabe que é bastante difícil pois nem todos tiveram ou irão ter uma oportunidade como a que se cruzou na sua vida. Outros, mesmo que os tentem ajudar, preferem ficar ali, porque para algumas pessoas “a rua é um vício”. “Dão-lhes roupa e comida. Para que querem uma casa? Para que é que vão trabalhar?”, revela Sérgio, que esteve no mesmo barco que eles durante anos. O que lhes ocupa a alma é apenas um enorme vazio e por isso “não querem uma palavra amiga, não querem ouvir ninguém”. 
Como disse o Paulo, estas pessoas “acham que tudo o que lhes acontece de bom ou de mau depende da sorte” e é por isso que sentem que já não vale a pena fazerem nada. “Já não acreditam em si e deixaram de ter esperança em que a sua vida tome outro rumo”. Muitos deles acham que “a sociedade tem de lhes dar tudo”. Porém o Sérgio nunca pensou desta forma. Apesar da revolta que sentia sabia que tinha de lutar por si, pois mais ninguém o iria fazer.
Durante todos aqueles anos o que mais queria era sair da rua, não só porque queria descobrir o prazer de ter a sua própria casa mas também para mostrar às pessoas que o olhavam de lado na rua e que tratam os sem-abrigo “como porcos” que podia vencer e que são seres humanos. E conseguiu mudar de vida. Em Fevereiro do ano passado, uma instituição arranjou uma casa para ele viver, pela qual paga 56 euros mensais. Consegue ter uma vida de certa forma estável por receber o rendimento mínimo. Agora só vai pedir comida às carrinhas das instituições de solidariedade quando precisa mesmo. Hoje tem a sua casa e dinheiro que quase chega para o básico.
Na verdade o Sérgio é um vencedor. Viu Lisboa durante 20 longos anos, conhece a cidade quase como a palma da sua mão. Percorreu-a “mais de mil vezes” com a esperança de encontrar um emprego. Já foi a Espanha procurar trabalho, mas tem a certeza de que não quer ir para outro país e as suas palavras revelam ainda alguma fé em Portugal: “o meu país é este”. Mas apesar disso não consegue deixar de se sentir revoltado com o país que o viu nascer e que não lhe oferece mais oportunidades de uma vida melhor. Sente também rebelião pela forma como os outros olharam para ele, porque no fundo somos todos iguais e qualquer um pode cair neste mundo. Quando lhe perguntei o que é, para si, mais bonito em Lisboa respondeu: “As mulheres, porque de resto… há muita discriminação”. Mas não deixa de recordar os seus passeios pelas noites de Lisboa e “a calma e a harmonia” que se sente nas ruas.
Acredita que é Deus que o ajuda e que foi ele que o tirou da rua porque “ninguém aguenta 20 anos na rua”. É esta fé que lhe permite continuar todos os dias a caminhar, embora lentamente, para uma vida melhor. Sabe que não há muitas pessoas com quem pode contar e, quando já não acredita nas pessoas, sabe que pode sempre acreditar Nele. Foi também Deus que o salvou das dezasseis tentativas de suicídio que tentou ao longo destes quarenta anos, catorze delas durante o seu percurso como sem-abrigo. “Quando chegava o momento havia sempre alguém que me puxava”, recorda, agora com alegria, pois está feliz por viver. Mas nessas alturas sentia “rancor, ódio, tudo o que é de mau”, pois estava decidido que queria pôr um ponto final na sua passagem pela vida, pensava que tinha chegado ao fim da linha. Sabe que também aqui foi Deus que olhou por si.
Todas as terças-feiras quando chego ao Campo das Cebolas lá está o Sérgio, para nos fazer companhia e para passar algum tempo com aqueles que considera como seus amigos. “São vocês. A minha família está na rua. São meus irmãos. Gosto de vocês”, diz enquanto olha à volta e aponta para os voluntários que entregam comida, roupa, palavras e sorrisos. Durante os anos em que esteve na rua conheceu muitas pessoas, mas nunca se envolveu demasiado. É em nós que encontra a palavra amiga que lhe faltou durante quase quarenta anos. E foi disso que sentiu tanta falta. Se tivesse de escolher uma palavra para dizer aquilo que lhe fez mais falta, comida ou amor, sabia expeditamente o que responder: “das duas, da mesma forma”.
O Paulo também acredita que é importante conversarmos com eles, e não limitarmo-nos a dar-lhes refeições. Desta forma consegue obter mais facilmente a confiança deles. Mas nunca se entrega demasiado. “Evito estabelecer ligações fortes, para me defender”, conclui.
A vida do Sérgio melhorou bastante desde que arranjou uma casa onde dormir, onde passar o seu tempo e onde fazer as suas coisas. Porém, esta não se tornou num paraíso. Continua a ter obstáculos para enfrentar, como teve sempre. Ter uma casa não é tudo. Tem amigos com quem pode contar quando tem fome ou quando precisa de conversar ou de ouvir apenas uma simples palavra. Mas nem tudo se resolve assim, e o maior obstáculo que sentiu durante toda a vida persiste: a solidão. Até aos 18 anos viveu com os pais que o maltratavam física e psicologicamente – estava, portanto, sozinho. Tinha de trabalhar para viver e quando chegava a casa não tinha ninguém que o abraçasse e que lhe fizesse sentir que tudo valia a pena. Aos 18 anos, quando saiu de casa e se tornou num sem-abrigo, não conseguiu criar grandes amizades. Foram 20 anos sozinho, a vaguear pelas ruas de Lisboa. Haverá, certamente, poucas formas de solidão tão cruéis como esta. Agora tem uma casa, desde há pouco mais de um ano. Tem-nos a nós, com quem passa algumas das suas noites. Mas “toda a gente tem um sonho”. 
Apesar de já ter passado muito na vida, de já ter visto e vivido coisas que a maior parte das pessoas só consegue imaginar, de já ter tido sensações para lá do que é aceitável e de já ter fruído de demasiados sentimentos ao extremo, há muitas coisas que ainda não descobriu. Não sabe o que é sentir amor nem o que é ter alguém que se preocupa realmente consigo. Uma pessoa da qual uma parte da vida existe para ele. Não sabe o que é chegar a casa e ter alguém à sua espera, que lhe pergunte como lhe correu o dia, depois de lhe dar um beijo ou um abraço.
O que o Sérgio mais deseja é encontrar trabalho. Ter o seu próprio dinheiro, a sua independência completa e absoluta. Só assim pode melhorar a vida e criar condições para receber alguém, que lhe dê a descobrir o outro lado. Com 40 anos nunca teve uma namorada nem mesmo um caso de uma noite. É virgem. Não sabe o que são os namoricos de adolescentes, a paixão assolapada, os erros que se cometem inconscientemente, as desilusões e as tardes de lágrimas a correr insistentemente. E muito menos o verdadeiro amor.
Ao arranjar um emprego conseguia alcançar os seus dois outros sonhos: “ter a minha própria casa e ter uma família”. De facto, ao conseguir a sua autonomia, ter um trabalho onde arrecadasse dinheiro para que todos os meses pudesse dar àqueles que iria certamente amar uma vida como a que ele nunca teve, seria bem mais fácil chegar onde ainda não conseguiu chegar. “Se um dia tiver filhos vão ser tratados como eu nunca fui”, garante com determinação na voz.
Com um percurso de vida marcado pela solidão só lhe resta olhar em frente. Com os seus olhos castanhos a apontar na direcção dos meus, diz-me que “O futuro é daqui para a frente, já com um sorriso nos lábios”.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Começaram hoje a ser analisadas várias amostras de pepinos portugueses para se confirmar que estes não contém a bactéria Escherichia coli (EHEC). Até ao momento não foi detectado nenhum caso em Portugal infectado com esta bactéria.
Já morreram pelo menos 15 pessoas na Alemanha e uma na Suécia. Pensou-se que a origem eram os pepinos vindos de Espanha mas ontem as autoridades de saúde pública alemãs revelaram que não foram as bactérias encontradas em duas amostras realizadas a pepinos espanhóis que provocaram as infecções de centenas de pessoas na Alemanha. Ainda hoje a Alemanha confirmou isso mesmo. Desta forma, não há motivo para tanta preocupação por parte dos consumidores, que preferem não comer pepinos, mesmo que estes sejam de origem portuguesa.
Contudo, por medidas de segurança, estão a ser analisadas no Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, no Porto, várias amostras deste alimento.
Falta, portanto, saber qual é a causa para todas as infecções que foram causadas na Alemanha.

Fotografia: online do jornal i